08/04/2019

Meu socorro vem do Senhor que fez os céus e a terra


Beira, 08 de abril 2019.
Amados irmãos, paz!


Está um pouco difícil começar esta carta. São muitos acontecimentos, emoções, perguntas, imagens que vão e voltam à mente. Nestas horas são muito úteis as palavras do Salmista: “De onde me virá o socorro? Meu socorro vem do Senhor que fez os céus e a terra”. Assim tem sido conosco e com milhares de moçambicanos atingidos pelo ciclone Idai dia 14-15 de março.

Uma noite “de vigília” - Fomos avisados que haveria um ciclone muito forte. Mas quem nunca passou por algo assim, não tem como dimensionar o fenômeno. Fizemos alguns preparativos, mas nada poderia nos preparar para as 10 horas de angústia: das 18h00 até as 4h00. Chuva e ventos muito fortes e um uivo constante, acompanhado do barulho de telhas voando, árvores e postes da rede elétrica caindo, e sendo continuamente fustigado pelo vento forte e chuva. De repente começou a cair água dentro do nosso apartamento, pois algumas telhas haviam voado. Moramos no terceiro (e último) andar de um prédio, o que nos fez receber boa parte da água acumulada na laje. É desnecessário dizer que passamos a noite “em vigília”, orando e acompanhando o desenrolar do ciclone. Mas a nossa preocupação maior era com as famílias que sabíamos iriam sofrer por morar em casas precárias. E assim foi. Conversamos com várias pessoas que ao verem o teto voar e/ou a casa cair, correram com seus filhos em busca de abrigo na casa mais próxima, que muitas vezes estava na mesma situação. Das pessoas que conhecemos ninguém perdeu a vida, mas há centenas de mortos em três vilas mais afetadas pelo ciclone, seguido de enchente.

A cobertura do nosso apartamento perdeu umas 25 telhas de amianto. No dia seguinte, tiramos água da laje, e improvisamos com algumas folhas de zinco, sobre as quais colocamos blocos de cimento para o vento não levar as chapas (como a maioria das casas aqui). Ainda estamos estudando uma solução definitiva. Não há telhas na cidade, e a mão de obra (qualificada) está difícil. Pelo menos não tem chovido nos últimos dias.

Uma visita encorajadora – Na semana passada fui a vila de Buzi, uma das mais afetadas, com dois colegas e o pastor da nossa igreja local. Fomos levar comida, roupas, remédio e consolo ao pastor Daniel Bai Bai e sua esposa, mama Graça. Eles conseguiram se salvar da enchente após o ciclone, mas ficaram 4 dias dentro da água. A casa deles foi totalmente destruída. Mas pela graça de Deus, os 7 membros da família foram salvos. Vimos muitas pessoas sem casa, vivendo em barracas improvisadas, à espera de comida, remédios, etc.  As mulheres estavam catando as roupas no meio dos escombros e lavando na água (suja) da enchente. Perguntamos ao pastor Bai Bai porque não quis ser trazido para Beira. Disse que não poderia abandonar as pessoas da igreja e comunidade. É um sentimento de dever, de amor ao próximo que o manteve na vila em condições muito precárias. Esta atitude diz milhões de palavras e nos encoraja a perseverar com nossos irmãos aqui.

Há muita ajuda humanitária chegando de vários países, ONGs, e organizações ligadas à ONU. Há uns 110 abrigos temporários na Província de Sofala, com pouco mais de 100.000 pessoas abrigadas. Alguns tem boa assistência, outros nem tanto. Mas, não é um lugar apropriado. Sempre há os aproveitadores, que entram para roubar e abusar de mulheres.

Como estamos – Muitos tem nos perguntado isso. Mas, estamos bem. Não há espaço para reclamação. Sim, vivemos mais de 10 dias sem água, luz e comunicação. Acolhemos uma família em nossa casa por uma semana, a nossa rotina mudou totalmente para atender as emergências, mas quando olhamos para os que estão sofrendo muito, percebemos a grande misericórdia de Deus para conosco. Tudo isso gerou um nível de cansaço elevado, mas temos conseguido dormir bem à noite e renovar as forças. Mamãe, que está morando conosco, adoeceu com vários sintomas físicos, cremos que pela somatização da situação de estresse, mas, graças a Deus, está cada dia melhor.

IBS, 2 semanas sem aula – O Instituto Bíblico de Sofala (IBS) onde trabalhamos, foi afetado, mas a estrutura do prédio principal ficou inteira. Perdemos algumas janelas, vidros quebrados, e o pior foi parte do telhado de um prédio hexagonal. Ainda estamos consertando o estrago. Com isso, as aulas da escola primária Beira Unida (nossa parceira), estão funcionando todas no prédio principal do IBS. O que me chamou atenção foi que a janela da biblioteca não quebrou, e todos os livros foram preservados. Mas, olhando para os alunos, a situação é bem diferente. 

Aproximadamente 50 alunos tiveram danos graves, perdendo a casa (ou parte dela) ou, no mínimo, o telhado inteiro. Alguns estão abrigando ou sendo abrigados por parentes. Estamos ajudando alguns com comida e outros, com um pouco de recursos para remediar a situação das casas. Por conta da tragédia, ficamos 2 semanas sem aulas, para que os alunos pudessem cuidar das suas casas (improvisar uma cobertura, ou pelo menos um cômodo), questões de saúde, mas há alguns que ainda não retornaram às aulas. Fizemos uma adaptação no horário das aulas, para que os alunos possam sair mais cedo (20h30), por questões de segurança. Ainda falta energia elétrica em muitos bairros (no IBS temos um gerador para as aulas) e o transporte está difícil. Oramos a Deus pelo restabelecimento da energia elétrica, das casas dos irmãos, mas também das vidas. Alguns estão muito desanimados, mas a maioria, muito grata a Deus por ter preservado suas vidas.

Lições do Idai – A grandeza de Deus e a nossa pequenez. Quando ouvíamos o barulho e víamos a força do vento, lembramos que é Ele quem controla os ventos e nos sentíamos muito pequenos, impotentes diante de tamanho poder. Uma oportunidade de louvar/agradecer a Deus pela vida. Estarmos vivos é uma dádiva do Senhor, que certamente ainda tem trabalho para nós aqui. Uma oportunidade de consolar os que choram, e apontar-lhes Jesus, o autor da vida e o único que pode salvar e renovar nossa esperança. Uma oportunidade de servir o próximo. A tragédia nivelou todos ao nível de “seres humanos”, sem classe social ou etnia; inclusive tirou a nós, missionários, da nossa zona de conforto. Todas as nossas casas foram atingidas e, assim, podíamos nos solidarizar melhor com os que sofrem, e servi-los de maneira prática. Como disse uma vizinha: “O Idai está aproximando as pessoas”. Uma oportunidade para aprender dependência de Deus. Quando ficamos sem luz, água, internet, e a casa em condições anormais, pessoas morando conosco, destruição visível e pessoas sofrendo, sentimos melhor o quanto somos dependentes de Deus. Tem sido uma experiência muito boa.


As necessidades – As maiores ainda são alimentação e recursos para reconstrução das casas de muitas famílias, sejam de alunos do IBS, igrejas que servimos, ou de alguns projetos sociais que apoiamos. A AMEL e MIAF estão recolhendo fundos e nos repassando.
Agradecemos de todo coração pelas orações e contribuições de todos. Que o Senhor os recompense adequadamente! Temo-nos sentido amparados e supridos e em tudo isso vemos a bondade e fidelidade de Deus.


Juntos em Cristo e pelo seu evangelho aos povos, 
Vossos servos em Moçambique,
Roberto e Deila. 


Motivos de oração:
  • Agradeçam a Deus pela sua proteção e cuidado com nossas vidas;
  • Orem por conforto Divino pelas famílias que perderam pessoas e suas casas;
  • Orem pela salvação de muitos. Só isso poderá trazer esperança.
  • Orem para que as igrejas tenham um papel central na ajuda prática, na evangelização e transformação a longo prazo. Que não percamos esta grande oportunidade!
  • Por sabedoria para usar os recursos (a quem dar, como, quanto, etc).