24/04/2019

Resumindo emoções


A vida durante e pós ciclone IDAI
Como resumir os factos e os sentimentos durante e após o ciclone? A Beira foi atingida em cheio pelo Idai, que além de provocar muita destruição, também virou a vida de ponta cabeça. Por alguns dias a rotina foi sacudida pelo vento de modo que era difícil saber até qual era o dia da semana. Os dias seguintes pareciam todos iguais, dormia-se pouco, acordava-se entre 4.30h para catar água, e o tempo que sobrova era para limpar a casa, fazer curativo em vizinhos, cozinhar para um grupo de pessoas.Talvez a palavra que defina melhor aquele período seja “caos”. A cidade ficou sem eletricidade, sem água, sem rede para comunicação, sem acesso ao dinheiro nos bancos, ou caixas eletrónicos, as lojas tinham poucos produtos, as aulas canceladas, hospitais cheios, etc. O cenário era desolador, postes no chão, árvores arrancadas pela raiz, e quase tudo destelhado. Bairros nobres ou subúrbio, ninguém foi poupado. Mesmo as igrejas sofreram com a fúria do Idai. Na Beira temos três capelas e duas ficaram sem telhado e outra desabou. Muito lixo na rua, águas paradas, um cenário propício para doenças. Foram dias de muito trabalho físico e fiquei tão cansada que dormir tornou-se um desafio

Quais foram os meus sentimentos?
Muitos e variados. Sentimento de impotência diante da fúria do vento, medo, preocupação com os irmãos e temor diante do poder de Deus. À medida que eu via a minha casa de cimento sendo destelhada, janelas voando e os vidros sendo quebrados, eu pensava nos irmãos mais carentes. Eu não podia fazer nada além de orar. O barulho do vento era como se ele gritasse que Deus é poderoso, e que podia destruir tudo num só minuto, se Ele assim desejasse. Se Ele nos preservou a vida, naquele ciclone, foi pela Sua Graça.

A oração e o socorro do alto
Quando era por volta de meia noite e trinta, o vento acalmou um pouco e todos pensávamos que já tinha acabado. Começamos agradecer à Deus, e de repente o vento mudou de posição e recomeçou ainda mais violento. Nesse momento as janelas do meu quarto também se foram e já não havia outro canto “seco” e seguro que podia se ficar, senão ao lado da mesa na sala de jantar sentada no chão encostada numa parede. Não se dormiu naquela noite, apenas oramos e esperamos a tormenta passar. O sol se recusou a aparecer por dias, e sem telhas e sem janelas a água continuava a entrar. Tivemos que improvisar e por plásticos nas janelas, e esperar o sol e o socorro do alto. O socorreu veio alguns dias depois através de um avião da MIAF que veio do Quênia recebemos lonas para cobrir as casas, remédios, e alguns mimos. Que benção!

Nunca pensei...
Nunca pensei que gastaria tanto tempo numa barbearia. Sem eletricidade, a questão era: onde recarregar o celular? Descobri que podia recarregar numa barbearia que tinha gerador. A fila era grande e tinha que apanhar uma senha. Os jovens empreendedores, anotavam num bloco o nome do dono e o modelo do celular e colavam um pedacinho de fita adesiva com o número da senha. Pagávamos 20 Mt por hora. As idas à barbearia diariamente renderam boas conversas sobre o ciclone, sobre Jesus, e o propósito da vida.
Não poder falar com a família por muitos dias foi a parte mais difícil para mim. Muitos dias depois quando tivemos rede e falei com minha irmã foi quando consegui chorar pela primeira.

Perdas e danos
Na minha casa, todos os cômodos foram atingidos com muita água, que vinha através das janelas quebradas, pela infiltração das paredes e pelas lâmpadas e tomadas, já que muitas telhas tinham sido arrancadas. O único cômodo que não foi atingido foi aquele que eu chamo o “quarto das viúvas” onde guardo as coisas do Projecto Proíde. Isso não me surpreendeu, pois, a Bíblia diz que Deus tem um cuidado especial com as viúvas. Diga-se de passagem, o muro do projecto, também resistiu bravamente. Naquela região, muitos muros foram ao chão, mas o nosso, apesar de duas árvores caírem sobre ele, resistiu. Uma terceira árvore caiu sobre a casa do guarda, que pela “graça já tinha fugido dali, minutos antes.

O que aprendi?
Aprendi que Deus é soberano e age nos eventos. Ele fez todo o mundo olhar para Moçambique, e sei que Ele tem planos nisso. O que mais me impactou nessa experiência, foi ver como os Moçambicanos reagem diante da tragédia. Eles não reclamam, eles encaram a tragédia de frente. Eles vivem a canção brasileira que diz “levanta sacode a poeira e dão a volta por cima”. Nos cultos, cada qual testemunhava o amor e proteção de Deus e como foram poupados. Não havia lamento, mas louvor. Alguns ditados que eles usam frequentemente mostram claramente a cosmovisão deles: (1)a luta continua. (2)o caminho é a frente, (3) estamos juntos. O povo é lutador.

IDAI e dai?
Gostei de um trocadilho que ouvi de uma jornalista Moçambicano com o nome do ciclone e a expressão “e daí?” Quero emprestá-lo para contar que se não bastasse todo o stress daqueles dias diante do ciclone IDAI quando a comunicação voltou comecei a receber mensagens da Universidade dando-me o prazo da entrega da última versão da tese naquela semana. Tentei explicar as dificuldades, mas a resposta era a mesma. E daí? E daí que você não tenha luz? E daí que a sua volta a cidade está num caos, que você não consegue se comunicar com Portugal? E daí que você tenha que trabalhar a luz de velas? Tem que entregar se você quer defender em junho...

De vento em popa
De vento em popa é uma expressão popular usada para representar a ideia de que algo está correndo bem, com sucesso e que não poderia estar em melhor situação. Popa é a parte de trás das embarcações. Quando o vento está a soprar na parte traseira do barco, significa que as correntes de ar estão a empurrá-lo para frente (soprando as velas), facilitando assim a sua locomoção de maneira mais rápida. Por outro lado, quando o vento está a soprar para a proa (parte da frente), o barco encontra maior dificuldade para seguir o seu rumo. Na vida nem sempre tudo corre de vento em popa. Às vezes enfrentamos ventos contrários, ventos fortes, assustadores. Hoje temos a tecnologia que prevê as catástrofes, classifica, alerta, laranja ou vermelho. Fiquei a imaginar como teria sido nos tempos de Jesus quando os discípulos saíram para o Mar e depois viveram o episódio da tempestade. Ali Jesus mostrou a sua autoridade quando mandou o vento se calar. Como teria sido se Pedro tivesse recebido um whats app a dizer: “hoje é alerta vermelho, não saiam ao mar, pois os ventos são contrários”. Talvez ele não tivesse ido, mas não teria conhecido essa outra faceta do Mestre. O poder sobre a natureza. Nem tudo é possível prever. Os ventos fortes às vezes vêm de surpresa, mesmo sem avisar, contrariando as previsões meteorológicas. Ou pelo contrário, aquilo que parece uma catástrofe eminente se desfaz numa só palavra do MESTRE.

Num minuto uma notícia de morte, a descoberta de uma doença, um problema familiar, sopra sobre as nossas vidas e tudo vira de cabeça para baixo como se fosse um ciclone. A única coisa boa num ciclone é saber que ele vai passar. E quando passar é hora de levantar, ver a destruição, calcular os prejuízos e seguir em frente. A luta continua. Vamos reconstruir.Vamos fazer como Jó, e como os moçambicanos, vamos enfrentar a tragédia de frente.

Obrigada a Todos pelo apoio, as orações e as contribuições.

Maura