Por Jairo Oliveira
Os dados mais recentes do relatório, Global Trends 2025, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), retratam a dimensão da atual crise migratória mundial. Ao final de 2025, 117,8 milhões de pessoas em todo o mundo se encontravam deslocadas à força em consequência de conflitos, perseguições, violência, violações de direitos humanos e insegurança. Desse total, 41,6 milhões eram refugiados, 9 milhões eram solicitantes de asilo e 68,7 milhões permaneciam deslocados dentro de seus próprios países.
Em outras palavras, uma em cada 70 pessoas no mundo estava em situação de deslocamento forçado ao final de 2025.
Em meio a esse grande desafio humanitário global, há algo em especial que deve chamar a atenção da Igreja brasileira: a África está imersa nessa realidade desafiadora.
Quando identificamos que cinco países africanos — Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Somália e República Centro-Africana —estão entre os dez que mais enviam refugiados e pessoas com necessidade de proteção internacional para o mundo, não restam dúvidas de que o continente africano está no centro da atual crise migratória global.
O Sudão, país onde servi como embaixador do evangelho, merece atenção especial. Ao final de 2025, aproximadamente 2,8 milhões de sudaneses eram refugiados, um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o país registrava 9,1 milhões de pessoas deslocadas internamente, tornando-se a maior crise de deslocamento interno do mundo.
Ao chamar a atenção para o deslocamento de africanos, não estamos falando apenas de pessoas que deixam o continente. Uma característica importante da realidade africana é que a maior parte das pessoas deslocadas permanece dentro do próprio continente e, muitas vezes, dentro do próprio país.
Essa realidade é especialmente evidente na África Ocidental e Central. Os dados de junho de 2026, divulgados também pelo ACNUR, apontavam para mais de 14 milhões de pessoas deslocadas internamente nessas duas regiões.
Durante muito tempo, a missão da Igreja foi imaginada principalmente como um movimento de pessoas do Ocidente para outras partes do mundo. Hoje, porém, a realidade é muito mais complexa.
A Igreja global está presente em meio aos fluxos migratórios, uma vez que refugiados africanos, entre outros grupos, estão se deslocando dentro de seus próprios países, entre países africanos e também para outras regiões do mundo. Ao mesmo tempo, comunidades africanas estão crescendo em cidades que antes tinham pouca presença africana.
Isso significa que Deus está colocando povos diferentes, alcançados e não alcançados, em contato uns com os outros.
Para a MIAF, essa realidade nos leva a uma pergunta fundamental:
Como podemos enxergar os movimentos migratórios não apenas como uma crise a ser enfrentada, mas também como uma oportunidade para a missão?
Não se trata de romantizar o sofrimento causado pela guerra, pela pobreza, pela perseguição ou pela instabilidade política. Significa reconhecer que, mesmo em meio a circunstâncias dolorosas, Deus continua agindo na história e continua chamando Seu povo para estar presente onde as pessoas estão.
Ao percebermos que a África está no centro dos grandes movimentos populacionais do nosso tempo, precisamos reconhecer que o desafio africano é também um desafio para a Igreja global.
A MIAF acredita que a missão não pode ser separada das pessoas. Portanto, se as pessoas estão se movimentando, o nosso entendimento é que o corpo de Cristo precisa estar disposto a se movimentar também.
Por isso, precisamos estar dispostos a atravessar fronteiras — geográficas, culturais e linguísticas — para levar o evangelho, formar líderes, fortalecer a igreja e servir pessoas em contextos de grande vulnerabilidade.
A crise migratória mundial está entre um dos grandes desafios missionários da nossa geração e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades que Deus está oferecendo à Sua Igreja.

